38. Eu, encostado à parede
Fico francamente lixado
com a ordem natural das coisas.
Se existe ordem e ela é natural
a desordem será sobrenatural
e é nessa bancada inóspita
que me sentarei para sempre.
Nas orelhas
vento, vento e mais vento
essa tempestade absurda
que vai custar-nos uma imensidão de energia.
Alguém faça as contas.
Ficarei tranquilamente
engraxando os sapatos
vendo passar a multidão
para que
neste pedaço de sabão distorcido
todos venham esfregar as mãos
esfregar os narizes.
Sigam a ordem
por favor
sigam a ordem.

36. Ode ao ódio
Ó ódio
crosta do mundo
estilhaça logo
de um brado
as lanças levantadas!
De ti espero iguais maravilhas
às que a imaginação derrotou!
Bramidos
de gargantas fétidas
o medo
com febre mortal!
Remodela o telejornal
o governo
e a nação acocorada
Tem piedade
desta nova ordem
abençoa os polícias
e a fúria decepada
Ódio sagrado
limpa as tripas aos sujos
e paga os impostos
aos insolventes!
Ódio cristalino!
Ódio refulgente!
Ódio inteligente!
Ocupa com o teu talento
esta colossal ausência
Põe por nós
vetustas vestes
na nossa demência!
35. A seguir embarquem-no
Vestiram-lhe um uniforme
deram-lhe uma arma
apresentaram-no à morte
tudo grave, transcendente
mas continuou a sentir efeitos colaterais primários
fome, vontade de urinar
Deram-lhe uma voz de comando
ensinaram-no a ser rectilíneo, mecânico
mas continuou a ter pensamentos
por vezes gripe, dores de cabeça
Cortaram-lhe o cabelo, a barba
mas a mulher continuou a traí-lo
as contas apareciam na caixa de correio
Ditaram-lhe uma missão
mandaram-no à guerra
mas continuou a ter vontade de bocejar
sono mesmo
e o tique de coçar os testículos enquanto a pátria o olhava