a cave

66.

Posted in delírios, poesia by homem da cave on Março 27, 2009






seria importante
mas não foi

seria feliz
e morreu

seria belo
e estropiou-se

tudo se revelou tremendamente branco

um branco de verso de poema

como tal
tremendamente recusado

tal como
tremendamente não se usa em poesia

e essa coisa da voz e tal
da voz poética

ouvindo vozes
ficando loucos

que grande porra
vai rever o que escreves

outros dizem:
o terreno arado da literatura
ou será o campo lavrado
o campo de futebol lavrado

tudo são campos
alguns impraticáveis para a prática

por lá passaria
e não passou

por esses campos eivados

seria louco outra vez
e não conseguiu






65.

Posted in poesia by homem da cave on Fevereiro 25, 2008







ela entrou no atelier
os seus passos eram justos
o pintor não fizera a barba
que sombra estranha nos olhos
segurava o copo como um escudo
tinha o violeta derramado pelo chão





64.

Posted in poesia by homem da cave on Fevereiro 13, 2008







o que não se vê do amor
é a morte lenta do amor

o que aproxima mais a morte é a vida
o que gela mais o corpo é a febre





63.

Posted in delírios, poesia by homem da cave on Fevereiro 6, 2008














lancetei o âmago
para testar a lâmina

não me interesso por anatomia





62.

Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 30, 2008














Nada me move contra a monarquia
Seria até um bom regime
Não fossem os monárquicos
Os condes e os duques
Os basbaques a olharem os condes e os duques
Os restauradores amolados com a república
E todos os obstipados guardas da tradição

Não é que a tradição não seja uma coisa boa
Que até é
O pior sãos os tradicionalistas
Com a sua rigidez de espinha
E os seus bigodes
Os seus chapéus e a sua delicada felicidade

Não é que seja contra a felicidade
Mas assustam-me os felizes
Que fazem muitos filhos
Para também terem um destino feliz
Para criarem associações de famílias numerosas e felizes
Milagres da indústria da felicidade
E essas maçadas



Posted in delírios, poesia by homem da cave on Janeiro 28, 2008







61.

Enlarge your penis heart brain





Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 25, 2008














60.

ao poema
mandei-o para a musa que o pariu

aos adjectivos
(refinei-me)
chamei-lhes iconoclastas

e ao poema, de novo,
mandei-o copular
com a criatura mais desagradável que me ocorreu

aos verbos
(insultando-os)
chamei-lhes expressões

e, logo de seguida,
arrepanhei toda a literatura do universo

e amesquinhei todas as gramáticas

com o desígnio único
singular
de te sugar
de me desdizer
de me deixar levar
apenas pelo cio





Posted in delírios, poesia by homem da cave on Janeiro 24, 2008







59.

Chegou novo correio. Deseja lê-lo agora?
Não responderei jamais
a perguntas impertinentes do outlook.





Posted in poesia by homem da cave on Novembro 26, 2007







58.

disse-me
a vida não é um filme de acção

se o é
não é mais que a torneira da banheira a pingar
ou o sol de agosto despedindo-se

disse-me ainda
que a vida é mais conversa de comadres
tricotando à soleira da porta

e que
a vida foi copiada da vida do gato
a acção permanece na sesta de verão

foi vagamente isto
e terei percebido mal





Posted in poesia by homem da cave on Outubro 18, 2007







57.

tudo o que havia para dizer
ficou no post-it amarelo
pendurado na porta do frigorifico