a cave

Posted in delírios, irritações, poesia by homem da cave on Novembro 29, 2006







6. A civilização industrial

Eis, senhores, o desprezo da civilização industrial!
A arquelogia dos erros bem tramados.
As nuvens sobem, a meteorologia prevê-se fatal.

As emissões da televisão espanhola oriundas do subsolo
a pátria como mãe, os filhos da mãe sem pai
Manuel Unhinhas, gigolo de profissão
um disco de Bob Dylan nas mãos, que vai

e vem do desprezo da civilização industrial!
Os operários famintos cruzam as bicicletas
os operários famintos cruzam as pernas sem sal
não há nem haverá que alcançar mais metas.

Estes versos fragmentários são do raio que os parta
estes bastões vídeo são modernaços como o caraças
estas barrigas telúricas são de quem se enfarta
e do Minho é o verde e do Algarve as passas.

E da minha mãe é a cadeia de supermercados
porque, falando de cadeias, elas são constatáveis.
Responsáveis máximos de responsabilidades minímas
passeiam amigos estrangeiros de humores variáveis.

É a decadência da indústria, brinde de bolo-rei
já nem os manfios são os mesmos.
Prémios disto e daquilo, pela lei e pela grei
estes versos estão tão mal colados como os torresmos.





Posted in poesia by homem da cave on Novembro 28, 2006







5. Naufrágio

A folha cai da árvore oscilando
Cai um barco aveludado que levanta ora a proa ora a ré
A folha cai no chão definitivamente
Aquele naufrágio nunca será descoberto
Porque todos pensam que é Outono.

O que faz cair a folha não é a estação do ano
Não é o apodrecimento que faz cair a folha
O que a faz cair é a atracção pela oscilação
Ser um barco desgovernado perto do naufrágio.
O que dá movimento à folha ao cair não é a brisa
O seu movimento é os nossos olhos virados para o invisível.
O que mexe realmente não se vê
Mas a folha é como um manto que cobre
Uma tinta despejada num fantasma.
Assistimos ao naufrágio do nada
Porque ninguém repara que se trata de um naufrágio.

A decomposição do movimento da folha ao cair
Como todos os estudos sérios e aturados
Faz-nos crer que cai muito lentamente.
A velocidade real do naufrágio da folha
Estala-nos nos dedos. Já passou.
Um leve apoio no solo, a proa mais hasteada
Ali ficará à espera que saqueiem os seus tesouros
Mas ninguém conhece estes importantes acontecimentos.











Posted in delírios, poesia by homem da cave on Novembro 28, 2006







4. Os pés no ar

Os pés no ar
significam flutuar

as roupas no chão
significam confusão

na minha cama
o teu corpo significa ironia

a alegria de flutuar na confusão
é o desejo reflectido de pernas para o ar

e no imprevisto de cada posição
não cabe o medo de ser lançado pelo ar

e as palavras passam a vida a voar
sem saberem onde o chão as vai parar





Posted in delírios, poesia by homem da cave on Novembro 28, 2006







3. Tomás B.

Tomás B. deu uma valente sova na mulher
e sentiu vómitos
Com cada vez maior frequência sentia vómitos
ao bater na mulher
No dia em que enlouqueceu
Tomás B. sentiu vómitos e não bateu na mulher
No dia seguinte ao início da sua loucura
bateu na mulher e não sentiu vómitos
Tomás B. concluiu que
a loucura é um corrector de desvios
A mulher de Tomás B. afirmou à vizinha
que a loucura do marido era a normalização do atroz
negando existir qualquer desvio
ao que a dita vizinha ripostou
que o conceito de loucura implicava um conceito de não loucura
Tomás B. curou-se graças a uma terapia correcta
e deixou de bater na mulher por esta o tentar matar
todos os dias.





Posted in delírios, poesia by homem da cave on Novembro 28, 2006







2. fado

Felisberto, esperto
nascido e criado em
casado na
com

Mariete Sete
sua mãe
sua
João Salomão
pai
de profissão
na qual tem orgulho
ama a amante
Mariete Sete diz:
Seu entulho
João Salomão responde
Detem-te tratante
enquanto isso
Felisberto, esperto
arranja emprego em
na firma de
na rua do
e conhece a
Mais tarde vem a saber que
na certeza porém
que o patrão sabe tudo a respeito de
Mariete Sete está farta
João Salomão está gasto
levou no canastro
perdeu o orgulho
comprou um fato
a amante deixou-o
Inclassificável acto
dizem os amigos

Felisberto, esperto
vai ter com
no café do
Beija-a e aperta-lhe o braço
Ai faz a amante
e entorna-lhe o bagaço

Entra o pai
João Salomão
estupefacto
a amiga do filho
é a sua antiga paixão
Inclassificável acto

João Salomão
ajusta contas com o filho
Felisberto
no dia tantos
numa rua cinzenta
do Bairro de Santos











Posted in delírios, poesia by homem da cave on Novembro 27, 2006







1. Ab

olhe, é um absurdo
é um ab
é um surdo
é imundo
é im
é mundo
é fundo
é catastrófico
é filosófico
é perene
é uma sirene
é a polícia
é a fantasia
é a cia
é uma melancolia
é a sua tia
afinal é a sua tia
é a sua tia