a cave

Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 30, 2007







27. Nostalgia

Às vezes não tinha medo da morte
poderia vir o chamado fim
com sua grande lentidão de pormenores.

Sentava-se ao canto da sala
por ser o sítio mais fácil de conquistar
como um grande barco na tempestade
com fumo de carvão e nuvens
ligeiramente inclinado no flanco de uma onda.
O chamado amor, sim, existia
tinha sempre a quem telefonar.

A chamada melancolia
não tem grandes motivos para existir.
O corpo desliza na poltrona
como ela
até lugar nenhum.





Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 22, 2007







26. Gato

Num dia de sol
uma fada azul
lambeu um gato

Assim se inventou
o fulgor dos olhos
e o aço preciso
do felino





Posted in delírios, poesia by homem da cave on Janeiro 19, 2007







25. Notificação

Chegou o momento de saber toda a verdade
o momento de espalhar o lençol no chão
de se deitar por cima
e esperar

Virá um pássaro indefinível
ler-lhe uma notificação:
“os cruéis, os cruéis, os cruéis…”

Trinta páginas
para você pensar
que o cotovelo do braço
desabará a qualquer momento
para você se levantar
para um juiz gritar:
Deite-se e espere
onde eu mandar!





Posted in delírios, irritações, poesia by homem da cave on Janeiro 15, 2007







24. Os elefantes africanos são maiores que os asiáticos

Se um elefante incomoda muita gente
um telemóvel apoquenta muito mais
Se um elefante ocupa xis metros cúbicos de espaço
(façam o cálculo, não esquecendo
que os elefantes africanos são maiores que os asiáticos)
um telemóvel incomoda muito mais
Se um elefante não sabe utilizar o telemóvel
um telemóvel é utilizado por demais
Se um elefante, quando morre, fecha os olhos
(algures, dizem, em instalações próprias para o efeito)
um telemóvel devassa a própria morte
Se não estava nenhum elefante presente na execução de Saddam
pelo menos um telemóvel estava presente na execução de Saddam
Se todos os elefantes ignoraram a morte de Saddam
pelo menos um telemóvel roubou a morte a Saddam
Se quase todos os elefantes detestam pizza
pelo menos um elefante adorará fast-food em geral
enquanto um telemóvel se afiambra com baterias de lithium
Se um telemóvel roubou a morte a Saddam
não é caso para um elefante se sentir incomodado
Se é mistério para ser investigado
morte aos detectives, Salve rufias!





Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 11, 2007







23. Réveillon

Ao ano novo
nem o sabor a tabaco esquecido
se limpou da boca
Ao pequeno-almoço
disse:
Que rua alguma
se libertou
em arrotos celestes
Que polícia algum
depositou a flor
na cama
Que homem algum
te beijou
nos dentes

A cidade bocejou
e no pescoço
o rio cinzento enrolou











Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 8, 2007







22. Bolinhos de areias

Vai, compra-me bolinhos de areias
vi-os no supermercado
procuro o sabor dos bolinhos de areias fabricados pela minha tia
busco o Graal daquele domínio
as farinhas, os ovos, a manteiga, o açúcar

A minha tia foi o único alquimista que conheci
a sua fórmula do bolo de bolacha
torna-me compulsivo
provo todos os bolos de bolacha oferecidos aos meus olhos

Da minha tia, que morreu
ninguém preservou o laboratório
nem defendeu casa-museu
não se conservaram, como relíquias,
as antigas receitas de cozinha
cuidadosamente manuscritas
dignamente envelhecidas pelo muito manuseio e nódoas de gordura

Vai, procura no supermercado
o que sobrou da minha tia
a lembrança dos bolinhos de areias
mas também, ao alcance do meu dinheiro
numa prateleira de supermercado
a minha credulidade de criança
páginas rasgadas do almanaque
como as velhas receitas da minha tia





Posted in delírios, poesia by homem da cave on Janeiro 2, 2007







21. inutilidades bem vindas

close-up do extracto bancário
vontade de urinar na gare
crime no eléctrico 28
circunferência no teu rosto
e outras inutilidades bem vindas

o solfejo na tua voz
o sol que vejo no túnel
um harpejo minguante
o traquejo do que começa
e outras inutilidades bem vindas

sem ponta por onde me pegue
sem resignação para aceitar
sem cheta e sem dor
sem a minha gravata
e outras inutilidades bem vindas





Posted in poesia by homem da cave on Janeiro 2, 2007







20. um telemóvel que toca

imagina-se um vulto
algures
talvez numa esplanada
ou será numa secretária
ou na cama, que ainda é cedo
imagina-se um rosto
imagina-se uma mão
que agarra o telemóvel
neste caso bóia
neste caso voz
imagina-se tensão
por vezes tesão
vontade a ruir
imagina-se uma banalidade