a cave

Posted in poesia by homem da cave on Junho 27, 2007

 

 

 

53.

rente ao chão
verme desfolhado
casulo perdido
flor ameaçada
não consigo encontrar
o meu nariz

 

 

 

Posted in poesia by homem da cave on Junho 26, 2007







52.

Que haveria de importante
no acto de espalhar pregos pelas estradas?
O inspector Costa roía cigarros
e ensaiava a plasticidade do fumo
na atmosfera do gabinete da Judiciária.
A importância de espalhar pregos pelas estradas
era toda a importância da sua vida.
Quando converteu o mistério, chegava pelo corredor
o aroma dos pêssegos maduros da frutaria do 49.
Logo à noite teria uma mulher na cama
levaria rosas ou contaria o próximo crime.





Posted in poesia by homem da cave on Junho 22, 2007

 

 

 

51.

nesta rua ficou uma fila de casas no lado direito de quem desce
o lado esquerdo de quem desce desapareceu
e a rua manteve ironicamente o mesmo nome numa placa nova

o sabor da comida produz as mesmas descargas e emoções
a inclinação da rua é a mesma e o vozear das pessoas é quase o mesmo

agora da janela do meu olhar a rua é mais larga para o outro lado
na taberna poderei continuar a beber vinho branco de origem duvidosa
mas também cerveja à pressão amolecendo na esplanada recente

o céu desta rua é quase igual ao que conheci há mais de vinte anos

 

 

 

Posted in poesia by homem da cave on Junho 18, 2007













50.

patinhamos este fim de tarde espumoso
o vento, rangendo os dentes, distancia-nos

eis o contraste de cores que não distingo
de sons que não ouço
de pessoas que não vivem





Posted in poesia by homem da cave on Junho 15, 2007

 

 

 

49.

Arrumarei todos os livros
todos os quadros
em grandes caixotes

Entretanto
não velejo, motorizo-me
não sopro, vulgarizo-me
suprimo batidas cardíacas
pintado em papel cenário
descendo do céu
onde pontifica uma lua folclórica

Vou seguir este modelo
fingindo-me
vou arrumar todos os livros
todos os quadros
ignorando-me
vou viver de novo
matando-me

 

 

 

Posted in delírios, poesia by homem da cave on Junho 7, 2007

 

 

 

48. A decadência de Desmond

Desmond, o ex-mordomo de Rip Kirby
serviu-me um café na esplanada.
Se não era Desmond
era o imenso adeus
um eco no abismo
percutindo revistas de capas coloridas.
Depois, em euforia
distante do ar que sempre lhe conheci
Desmond trouxe-me os óculos de Rip Kirby numa bandeja.
Se já existisse música
talvez retribuísse com um sorriso
mas tudo isto se passava
num mundo a preto e branco
(pelo que as capas coloridas eram ilusórias)
uma época em que o meu cigarro não seria censurado
embora raspando aquela superfície
sentisse vontade de fechar os olhos
e sair para sempre.