a cave

O contrato

Casarei consigo
minha senhora
porque as minhas mãos
alvas de mostrar
repararam que só há beleza
onde se partilha
a mesma água
a mesma curva das montanhas.

Casarei consigo
apesar de só lhe ter falado por seis vezes
uma delas, um sumário convite telefónico
talvez porque as suas imperfeições
são as minhas
e toda a mulher bela
não resiste à sua essencialidade.

Descortino no seu olhar
uma serena timidez
que torna a minha timidez mais arrojada.
Vejo na sua maneira de se sentar
a leveza da nuvem que pousa no pinheiro
e a deselegante comoção de um marinheiro
fora do mar.

E eu sonho
sobretudo com tudo aquilo que me irritaria em si
antes de me tornar tolerante.
Compreendi que a paixão que lhe poderia devotar
tornaria mais rápida a desilusão
mas casando consigo
amando-a sensatamente
com a leveza de um licor macio
sem doer
talvez a ame para toda a vida.

Repare minha senhora
que a encontrei sem reparar
isto é, sem me aperceber
que iria ser minha
e eu lhe dedicaria um dia esta atenção.
Decidi gostar de si
amar o seu corpo esguio e aprumado
talvez para compensar da minha última namorada
algo curvada para a idade.

E no seu cigarro
que aliás detesto
encontrei algo que não sou
assim como procuro a paz nas igrejas
eu que perdi a fé.
Mas, numa capela branca
encontro no discurso do sacerdote
a loucura dos anti-profetas
um prazer irreflectido.
Fecho os olhos e a atmosfera apazigua
não encontro lugar para os pensamentos
e experimento uma deliciosa emoção
quando nos despedem em paz
na paz do Senhor
e os meus passos misturam-se
com os das velhinhas beatas
e sinto uma grande e reconfortante saudade
encontro o lugar da minha avó
que é dizer, o lugar da infância.
O cálice erguido no ar
o sangue místico do qual se bebe
um avaro gole
lembra-me que os bens mais raros são os mais preciosos.
E estou disposto a casar consigo
numa cerimónia religiosa
num domingo de sol com flores
e convidados suados no banquete
bebendo a abundância do vinho sagrado.
Não lhe tocarei
enquanto não despir o imaculado vestido branco
símbolo de tudo o que a senhora quiser
e do que eu quiser.
Há toda esta serenidade nos rituais
talvez porque nessa altura não precisemos de reflectir
e façamos o que os outros já entenderam
ser bom fazer.

Está decidido que casarei consigo
mas a senhora terá que levar de mim
o homem desencantado
que eu penso ser o verdadeiro Homem
aquele que abarcou a maior parte da sabedoria
como o mar abarcou a maior parte da terra.
Vai casar com um homem
que pensou um dia libertar os sonhos
dos nossos sonos
e pensou tomar o poder
como longa língua
a acariciar o céu da boca da humanidade
e libertar das árvores o verde
das papoilas o vermelho.
Como vê
mas não me lembre a minha fraqueza
vai levar um homem ridículo
porque tais coisas não acontecem
nem podem acontecer.
A liberdade só é suave quando há tirania
e a humanidade está dividida em dois géneros diferentes
os bons e os maus
os assim-assim são esta pseudo-humanidade que nos domina
nem bons nem maus
veja no que me tornei
mas não comente
prefiro que não comente.

Deixe ainda que lhe diga
minha senhora
como tentei dar a entender naquele almoço
com medo que me rejeitasse liminarmente
mas também com a coragem de me mostrar sem máscaras
que sou um homem simples.
Um verdadeiro homem simples
que deixei de frequentar as praias afastadas e longínquas
e me adaptei às praias suburbanas
que vou aos pastéis de Belém ao domingo
que sonho poder pagar um pequeno automóvel
em 60 prestações mensais sem entrada nem juros.
E o que exijo de si, minha senhora
e é a minha única exigência e condição
é que me acompanhe na minha simplicidade
que seja minha companheira
e que torne menos banais os meus hábitos
mais grandiosos os meus sonhos
menos solitárias as minhas lágrimas
embora tudo permaneça igual
que acenda o rádio do carro na fila de trânsito
a caminho da Caparica num domingo de Verão
mesmo que não diga nada
que apague o cigarro quase intacto
se notar que estou incomodado com o fumo
que me prepare pelo menos uma boa refeição semanal
e que de vez em quando tenha em atenção a minha tosse
o meu espirro inesperado
e me diga: deverias ir ao médico.
Tudo o resto está fora deste contrato de casamento
que me proponho celebrar consigo.
Tudo o resto
a surpresa do pôr do sol na praia num dia em que nos atrasámos
a doçura da chuva no Verão
o conforto do fogo no Inverno
uma ternura qualquer
serão casos resolvidos supletivamente
nos termos da lei geral para os contratos
tudo serão flores que me trará
só não me deixe só
dirija-se a mim e agarre-me pelo braço.

Minha senhora
teremos os nossos rendimentos próprios
viveremos do nosso trabalho
e sonharemos ser ricos
embora seja sensato não abandonar o emprego.
Sensato mas não agradável
digo-lhe já o que penso
não creio que o homem tenha sido criado
por Deus ou sua mãe
com toda esta perfeição
com cinco sentidos tão perfeitos e apurados
para apenas redigir tão bem
ou fabricar milhões de peças iguais durante uma vida.
Mas sou um homem simples e aceito o trabalho
embora tivesse outras ambições em jovem
como, não se ria, criar música
música ritual
e remeto para o que disse sobre rituais
porque assumo que são essenciais ao repouso do homem
para não soçobrar ao peso da criação permanente.
Mas também a música é trabalho
e Bach era um funcionário
talvez os espíritos simples tenham razão
talvez as vozes dos tecnocratas, dos homens eficientes
estejam dentro da razão
o trabalho salva o homem de não ter emprego
e a salvação do mundo é empregar toda a humanidade
quero acreditar nisto, minha senhora
e quero casar consigo
imaginando que, pudicamente abraçados debaixo de uma oliveira
abarquemos mais paisagem do que sós
e partilhemos dignamente a nossa tristeza
contando um ao outro qualquer fugaz felicidade.
O contrato a tanto não obriga
mas sou um homem desencantado mesmo quanto aos contratos
quero casar consigo, minha senhora.

Publicado por homem da cave, 27 de Novembro de 2006

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