a cave

Poetas

A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

Eugénio de Andrade

Publicado por homem da cave, 29 de Janeiro de 2007

 

***

PAISA *

ouve paisa tu compra algo mim
relógio, óculo, gorro
bom, bonito, barato paisa
tu compra algo mim…

mas é que não percebes…
não quero nada de ti moreno
já tenho tudo,
os teus bosques, as tuas minas, as tuas pedras
preciosas, as tuas negras
toda a tua pele e sal
e os leões enjaulados
e os bancos de peixes,
até a cor púrpura de África
– o corno da abundância –
tenho-o eu…

mas ouve paisa eu amigo teu
eu só procura trabalho em espanha
só compra algo, mim
eu fome, eu não casa
eu amigo paisa, muito amigo

não negro, tu não meu amigo,
esta não é a tua terra
eu agora tenho o tempo
e o fundo monetário internacional
e todas, todas as malditas
organizações não-governamentais
para lavar a cara e o cu
e vender-te como sempre
o que já antes era teu

ouve paisa mas eu sempre bom com tu
eu gosta barsa e paella
eu muito touro em sevilha
eu só fome paisa
muita fome…

és tonto negro,
tu nunca amigo meu,
a tua fome dá-me de comer
a tua sede enche-me as piscinas
a tua mulher aquece a minha cama
as tuas feridas de bala fabrico-as eu
eu sou o teu vírus da sida negro
eu sou o branco
de todos os teus pesadelos.

não paisa não
eu sempre amigo teu
eu cuida bem tua família
eu só ter a vida,
muito querer e amor
e sorrisos
que paisa já não tem,
só isso paisa, a vida.

Uberto Stabile
(do livro Só Mais Uma Vez, traduzido por Rui Costa, via ESCRITA IBÉRICA)

* “paisa” é uma expressão utilizada pelos imigrantes em Espanha para se referirem aos nacionais deste país e significa qualquer coisa como “amigo” ou “colega” – nota do tradutor.

Publicado por homem da cave, 20 de Junho de 2007

***

OH YES

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it’s too late
and there’s nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski

E na tradução para português de Manuel A. Domingos, no blog o amor é um cão do inferno, com a devida vénia:

há coisas bem piores do que
estar sozinho
às vezes são precisas décadas
para ter consciência disso
e muitas vezes
quando se tem
é demasiado tarde
e não há nada pior
do que
demasiado tarde.

Publicado por homem da cave, 27 de Março de 2007

***

ESPATIFAM O MUNDO

Espatifam o mundo
Aos bocados
Espatifam o mundo
À martelada
Mas estou-me nas tintas
Estou-me bem nas tintas
Sobra bastante para mim
Sobra bastante
Basta que eu ame
Uma pena azul
Um caminho de areia
Uma ave medrosa
Basta que eu ame
Um pé de erva ralo
Uma gota de orvalho
Um grilo do bosque
Podem dar cabo do mundo
Aos bocados
Sobra bastante para mim
Sobra bastante
Terei sempre um pouco de ar
Um pequeno fio de vida
Alguma luz no olhar
E o vento nas urtigas
E mesmo se, mesmo se
Me meterem na prisão
Sobra bastante para mim
Sobra bastante
Basta que eu ame
Essa pedra corroída
Esses ganchos de ferro
Onde o sangue se demora
Amo, eu amo
A tábua gasta da cama
A enxerga na madeira
A poeira soalheira
Amo o ralo que se abre
Os homens agora entrados
Que avançam, que me levam
Ao reencontro do mundo
Ao reencontro da cor
Amo esses longos montantes
O cutelo triangular
Os senhores que estão de luto
Orgulho-me da minha festa
Amo, eu amo
O cesto cheio de farelo
Para pousar a cabeça
Oh, eu amo-o a valer
Basta que eu ame
Um pezinho de erva ralo
Uma gotinha de orvalho
Um amor tímido de ave
Espatifam o mundo
Com seus pesados martelos
Sobra bastante para mim
Sobra bastante, meu amor.

Boris Vian

(tradução de Margarida Vale de Gato)

Publicado por homem da cave, 11 de Janeiro de 2007

***

FEAR

Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I’ve been told won’t bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children’s handwriting on envelopes.
Fear they’ll die before I do, and I’ll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.

I’ve said that.

Raymond Carver

Publicado por homem da cave, 4 de Janeiro de 2007

***

Veio Muley – Achmet marroquino
Com duros trigos entulhar Lisboa;
Pagava bem, não houve moça boa.
Que não provasse o casco adamantino:

Passou a um seminário feminino,
Dos que mais bem providos se apregoa,
Onde a um frade bem fornida ilhoa
Dava d’ esmola cada dia um pino:

Tinha o mouro fodido largamente,
E já basofiando com desdouro
Tratava a nação lusa d’ impotente:

Entra o frade, e ao ouvi-lo, como um touro
Passou tudo a caralho novamente,
E o triunfo acabou no cu do mouro.

Bocage

Publicado por homem da cave, 15 de Dezembro de 2006

***

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina

 

Publicado por homem da cave, 11 de Dezembro de 2006

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